SOBRE2026

SOBRE2026 é aberta com chamado por união entre ciência, saberes tradicionais e políticas públicas

29 de julho de 2026

A cerimônia de abertura da SOBRE2026 reuniu, na tarde desta segunda-feira, 27 de julho, no campus da Universidade de Brasília, autoridades, lideranças indígenas, pesquisadores e representantes da cadeia da restauração. A mesa foi composta pela professora Mercedes Bustamante, diretora do Instituto de Ciências Biológicas da UnB em representação da reitoria; pelo ministro do Meio Ambiente e Mudanças do Clima, João Paulo Ribeiro Capobianco; pelo presidente da SOBRE, Luiz Fernando Duarte de Moraes; pelas co-presidentes da conferência, Fabricia Costa e Anabele S. Gomes; pela presidenta da FUNAI, Lúcia Alberta Baré; pelo presidente do IBAMA, Jair Schmitt; pelo presidente do ICMBio, Mauro Oliveira Pires; pelo diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro, Garo Joseph Batmanian; pelo superintendente da Área de Meio Ambiente do BNDES, Nabil Moura Kadri; pela diretora de Inovação Social e Transferência de Tecnologia da Embrapa, Ana Margarida Castro Euler; e por Bruno Cotiguara, diretor de Gestão Ambiental, Territorial e Promoção ao Bem Viver Indígena da FUNAI.

Mercedes Bustamante abriu os discursos defendendo a necessidade de repensar o desenvolvimento do Brasil de forma sustentável e com respeito aos biomas, posicionando a restauração como agenda central para o futuro nacional.

O ministro João Paulo Capobianco afirmou que restaurar paisagens depende da articulação entre ciência, políticas públicas, conhecimento tradicional, financiamento e participação social. Anunciou a redução significativa do desmatamento nos diferentes biomas, mas ressaltou que a fragmentação das paisagens e a mudança do clima mostram que proteger não é mais suficiente. Citou o Planaveg e o compromisso brasileiro de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030. "Restaurar paisagens é restaurar a capacidade da natureza de restaurar a vida", afirmou.

A presidenta da FUNAI, Lúcia Alberta Baré, cumprimentou os indígenas presentes, destacando que são 70 participantes de 38 povos de diferentes biomas. Informou que são 1,9 milhão de hectares de áreas degradadas em terras indígenas, mas pelo menos 900 mil já estão em regeneração natural, mostrando que quando os territórios são protegidos a natureza se recupera. Anunciou a construção do primeiro Programa Indígena de Restauração Ecológica, previsto no Planaveg, com seis oficinas em todos os biomas, iniciando pela Amazônia. "Se a floresta adoece, os povos que dependem dela adoecem. Restaurar a floresta é para isso", disse, encerrando com a afirmação de que não há restauração sem a ciência indígena.

O presidente da SOBRE, Luiz Fernando Duarte de Moraes, fez um resgate histórico da criação da sociedade, lembrando que a SOBRE nasceu no âmbito da Rede Brasileira de Restauração Ecológica (REBRE) e que optou por se guiar por uma carta de princípios. "A restauração ecológica não se sustenta com técnicas e estratégias, mas principalmente em princípios", afirmou. Em um momento de emoção, leu a lista das 38 etnias indígenas presentes e pediu que se levantassem.

A co-presidente Fabricia Costa agradeceu os coletores de sementes presentes. "Quem faz restauração está ajudando toda a humanidade", declarou. Anabele S. Gomes, também co-presidente, afirmou: "Queremos restauração com inclusão e justiça climática", destacando que sem comunidades tradicionais não há sementes nem restauração.

O superintendente da Área de Meio Ambiente do BNDES, Nabil Moura Kadri, afirmou que a restauração está no topo das prioridades do banco, citando mais de dez iniciativas e 30 editais com participação de jovens, mulheres, povos e comunidades tradicionais. "Instituições são feitas de pessoas", disse.

Ana Margarida Castro Euler, da Embrapa, anunciou um programa de pesquisa e inovação em restauração de ecossistemas na instituição, citando nove sistemas de referência em restauração ligados a 43 unidades da Embrapa e a contribuição para o Planaveg.

Garo Joseph Batmanian, do Serviço Florestal Brasileiro, afirmou que a restauração é necessária para consertar algo que foi desmatado e que não se pode abrir mão da conservação, destacando que restaurar não é apenas plantar árvores.

O presidente do ICMBio, Mauro Oliveira Pires, apontou duas frentes para o futuro: a recuperação de áreas degradadas e a prevenção do desmatamento, com meta de chegar ao desmatamento zero.

O presidente do IBAMA, Jair Schmitt, informou o lançamento de um edital para selecionar projetos de recuperação da vegetação em todos os biomas, transformando multas ambientais em programas sustentáveis.

Bruno Cotiguara, da FUNAI, destacou o papel central dos povos indígenas na restauração e defendeu a construção de políticas adequadas com a sociedade indígena.

A cerimônia contou com uma homenagem ao professor Ricardo Ribeiro Rodrigues, professor titular da ESALQ/USP e coordenador do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal (LERF), reconhecido como uma das principais referências mundiais em restauração ecológica. Ex-coordenador do Programa BIOTA da FAPESP, Rodrigues ajudou a construir o campo da restauração como disciplina científica e política pública no Brasil e no exterior, sempre aglutinando pessoas e ideias e levando a restauração para a prática.

Em um momento de emoção, pessoas que foram alunos ou impactados por sua atuação foram convidadas a se levantar. "Conservar é mais importante que restaurar. Não se pode usar a restauração como desculpa para o desmatamento", afirmou ao agradecer.

A abertura foi encerrada com um diálogo entre Iran Xukuru e Nurit Bensusan. Iran Neves Ordonio, conhecido como Iran Xukuru, é agrônomo, professor e liderança indígena do povo Xukuru de Ororubá, em Pesqueira, Pernambuco, articulando conhecimento ancestral e práticas de restauração. Nurit Bensusan é bióloga formada pela UnB, fundadora e assessora do Instituto Socioambiental (ISA), com atuação na interface entre conservação, direitos de povos indígenas e políticas ambientais. O diálogo reforçou o eixo de inclusão da SOBRE2026, conectando restauração ecológica, saberes ancestrais e justiça climática.


Plenária discute governança da restauração e os desafios do Planaveg


A primeira plenária da SOBRE2026 discutiu a governança da restauração no Brasil e a agenda do Planaveg, o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa. A mediação foi de Raul Silva Telles do Valle, advogado com 24 anos de atuação em políticas florestais e chair do Forest Specialist Group da IUCN.

Thiago Belote, diretor do Departamento de Florestas do MMA, apresentou o Planaveg como um instrumento redesenhado para dialogar com as políticas públicas e com as principais conferências mundiais. Criado em 2017, o plano teve um hiato entre 2019 e 2023 e foi retomado com a participação de todos os coletivos de restauração na produção de políticas públicas, por meio de câmaras consultivas temáticas. Belote estruturou a estratégia em quatro pilares: cadeia produtiva, inteligência espacial e georreferenciamento, financiamento e desenvolvimento e inovação.

Para alcançar a meta de 12 milhões de hectares restaurados até 2030, apontou três caminhos: implementação do banco florestal, recuperação de áreas rurais com restauração produtiva e recuperação em áreas públicas. Destacou que a metodologia de governança já identifica 4 milhões de hectares em regeneração natural, muitos em unidades de conservação e terras indígenas, e citou a resolução aprovada em junho que vai mapear os territórios de restauração no Brasil.

Alexandre Bonesso Sampaio, analista ambiental do ICMBio, defendeu que as unidades de conservação precisam fazer parte da vida das pessoas e que a integração da paisagem é fundamental para conter a degradação. Sem envolvimento comunitário e sentimento de pertencimento, disse, perdemos prosperidade na conservação. "Não há restauração sem envolvimento das pessoas", afirmou, defendendo comunicação transparente com a sociedade.

Janaína Mendonça Pereira, analista ambiental do IEF-MG, trouxe a perspectiva da implementação do PRA Produzir Sustentável, voltado à regularização ambiental de propriedades rurais. Defendeu que a vegetação nativa em propriedades privadas é bem de interesse público e que reconhecer o proprietário como guardião da natureza muda a forma de avançar na legislação. Destacou que Minas Gerais fez uma mudança de paradigma institucional com o PRA Produzir Sustentável e apontou como desafios a baixa capacidade institucional dos estados e a mobilização dos proprietários.

Marcelo Elvira, secretário executivo do Observatório do Código Florestal, rede de 51 organizações da sociedade civil, destacou que a lei tem papel fundamental no Planaveg, pois dos 12 milhões de hectares da meta, 9 milhões dependem da implementação da legislação. Apresentou dados que revelam um passivo de mais de 20 milhões de hectares, dos quais 17 milhões em déficit de vegetação nativa e mais de 3 milhões em áreas de preservação permanente. Elvira rebateu o argumento de que a sobreposição fundiária inviabiliza a implementação da lei, mostrando que 63% dos imóveis não possuem sobreposição relevante, e informou que há 8 milhões de cadastros em processo de regularização ambiental. Encerrou destacando o papel da sociedade civil na produção de dados qualificados.


II EIRE reúne mais de 40 lideranças de 38 etnias na UnB


Nos dias 25 e 26 de julho, na Universidade de Brasília, ocorreu o II Encontro Indígena de Restauração Ecológica (II EIRE), reunindo lideranças, jovens, anciãos, organizações indígenas e parceiros de diversas regiões do Brasil para fortalecer o protagonismo dos povos indígenas na restauração ecológica e na proteção dos territórios. O encontro antecedeu a abertura da SOBRE2026 e aqueceu a participação dos indígenas na programação da conferência ao longo da semana.

Durante os dois dias de atividades, os participantes compartilharam experiências sobre recuperação de áreas degradadas, produção de mudas nativas, sistemas agroflorestais, conservação da biodiversidade, gestão territorial e enfrentamento das mudanças climáticas. O evento promoveu o diálogo entre os conhecimentos tradicionais dos povos indígenas e iniciativas voltadas à conservação ambiental, abrindo espaço para a troca de saberes entre as diferentes etnias e os parceiros institucionais presentes.

O presidente da SOBRE, Luiz Fernando Duarte de Moraes, participou do segundo dia do encontro e conduziu uma roda de conversa sobre a relação dos povos indígenas com a SOBRE e com a Society for Ecological Restoration (SER). Na ocasião, apresentou um panorama histórico da restauração ecológica como campo científico, desde o surgimento do conceito até a criação da SER, da Rede Brasileira de Restauração Ecológica (REBRE) e da própria SOBRE, destacando como a estruturação em capítulos regionais ampliou a representatividade da área.

Segundo Moraes, o fortalecimento dessa relação com os povos indígenas ganhou impulso após a primeira edição do EIRE, realizada em Juazeiro em 2024. "Depois do primeiro encontro indígena de restauração ecológica, a diretoria da SOBRE identificou no apoio aos multiplicadores indígenas de restauração ecológica e ao Programa Indígena de Restauração Ecológica uma forma concreta de contribuir com o movimento", afirmou. Ele destacou também a aproximação com a SER, que criou um comitê indígena, e a articulação para incluir representação brasileira nesse espaço.

Ao final do encontro, os participantes elaboraram um documento com propostas e sugestões para aprimorar a relação da SOBRE com os povos indígenas, além de esclarecer dúvidas sobre formas de se aproximar da REBRE e da SOBRE.


Saídas de campo levam participantes da SOBRE2026 a experiências práticas de restauração no Cerrado


Nos dias 25 e 26 de julho, os participantes da SOBRE2026 vivenciaram experiências que mostram na prática como a restauração fortalece comunidades, gera renda e contribui para a conservação do Cerrado. A programação incluiu dois roteiros. No Assentamento Oziel Alves III, foram apresentadas iniciativas que integram agricultura familiar, agroecologia e restauração produtiva, com destaque para o trabalho da Rede CORA na cadeia de sementes nativas. A visita ao IFB Campus Planaltina mostrou experiências com sistemas agroflorestais, sistemas agrocerratenses, bioinsumos e compostagem.

Na Chapada dos Veadeiros (GO), pesquisadores e técnicos percorreram diferentes etapas da cadeia da restauração conduzidas pela Rede de Sementes do Cerrado, pela Associação Cerrado de Pé e pelo ICMBio. Na Casa de Sementes, em Alto Paraíso de Goiás, conheceram a rede de coletores e participaram de atividades práticas de coleta em áreas de Cerrado. No Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, visitaram áreas em processo de restauração, referência nacional em semeadura direta com espécies nativas.

Emilvelton Fernandes, o Ni, quilombola do Território Kalunga e presidente da Associação Cerrado de Pé, ressaltou a troca com visitantes de diferentes regiões. "Foi uma grande troca de experiências. Eles trouxeram muitos conhecimentos novos para nós e, ao mesmo tempo, puderam conhecer o nosso trabalho com a coleta de sementes e a restauração ecológica", disse. Claudimiro Cortes, diretor de Restauração da Associação e coletor de sementes, completou: "É um trabalho que realizamos desde 2009 e temos conquistado cada vez mais visibilidade. Receber os participantes nos deixa muito felizes, porque mostra que estamos no caminho certo."

Yara Borges, da Secretaria Executiva da Nativas Brasil, participou dos dois dias e resumiu a experiência. "Hoje eu estou realizando um sonho. Sempre quis conhecer a Associação Cerrado de Pé e a Rede de Sementes do Cerrado. Poder conhecer tantos coletores em campo e entender de perto esse trabalho que torna possível a reconstrução dos ecossistemas degradados do nosso país é uma experiência muito especial", completou.

A SOBRE2026 acontece de 27 a 31 de julho na Universidade de Brasília (UNB). O evento é uma realização da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica com apoio da Araticum (Articulação pela Restauração do Cerrado), como patrocínio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)




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