Restauração

Restauração de ecossistemas aquáticos aprimora técnicas, mas ainda busca escala no Brasil

01 de setembro de 2026

A restauração de ecossistemas aquáticos no Brasil apresenta resultados cada vez mais consistentes, com iniciativas que vão da recuperação de nascentes à restauração de manguezais. Falta nessa área, entretanto, o reconhecimento que a restauração florestal já conquistou, mesmo com rios, manguezais e pradarias marinhas respondendo por parte essencial do oxigênio, da água potável e da segurança alimentar de milhões de pessoas.

Rios, nascentes, manguezais, recifes de corais e pradarias de gramas marinhas compõem um conjunto de ecossistemas responsável por serviços como purificação da água, controle de enchentes e proteção costeira. Estima-se que entre 50% e 80% do oxigênio do planeta venha de habitats aquáticos, a maior parte gerada por fitoplâncton oceânico, que ainda não recebem a devida atenção quando se fala em restauração ecológica.

A Década da Restauração de Ecossistemas da ONU, que vai de 2021 a 2030, tenta corrigir essa desproporção, chamando atenção para a importância de priorizar também as iniciativas que focam na vida aquática. No Brasil e no mundo, projetos em curso mostram que existe base científica e técnicas testadas para recuperar ecossistemas aquáticos degradados, com resultados concretos, protocolos em formação e comunidades que dependem desse trabalho para manter seus modos de vida. Neste contexto, uma demanda urgente é a criação de políticas públicas que consolidem tais iniciativas.


Restauração busca recuperar ecossistemas aquáticos degradados


A restauração ecológica de ecossistemas aquáticos é um conjunto de processos que visa recuperar ecossistemas degradados com o objetivo de restabelecer sua integridade. Abrange uma ampla gama de ambientes marinhos e continentais, incluindo rios, nascentes, lagos, áreas úmidas, pradarias de gramas marinhas, manguezais e recifes de corais.

Nesses ecossistemas, a restauração atua sobre a recomposição de estrutura, biodiversidade e funções ecológicas, visto que os mesmos perdem interações e espécies ao longo do processo de degradação. Em geral, o objetivo final é conservar a biodiversidade, restabelecer a conectividade entre as espécies e áreas naturais e, em alguns casos, auxiliar na mitigação das mudanças climáticas.


As alterações humanas levam à homogeneização dos ambientes, à redução de espécies e até extinções locais. A restauração visa contribuir com a conservação da biodiversidade pela recuperação de habitats e da funcionalidade dos ecossistemas; e para isso deve considerar a reintrodução de fauna e flora nativa, a conectividade natural entre ecossistemas fragmentados e de, preferência, apoiar iniciativas de regeneração natural. "A restauração busca recompor funções e estruturas que sabemos que aquele ecossistema já teve, mas sem a pretensão de trazer de volta interações que talvez estejam perdidas para sempre", diz Alline Filgueiras de Paula, pesquisadora que monitora áreas em restauração ecológica no Rio de Janeiro e já estudou o impacto nos bancos de gramas marinhas em Abrolhos e invasões biológicas na Baía da Ilha Grande. Para ela, esse recorte define o que a ciência pode e o que não pode prometer. "Quando você entende que está recompondo funções e não reconstruindo o que existia antes, o foco muda para buscar que aquele ambiente possa recuperar parte da biodiversidade e da sua capacidade de sustentar vida", diz.

Poluição e mudança climática ameaçam ecossistemas aquáticos



Alline explica que as ameaças mais frequentes aos ecossistemas aquáticos, tanto marinhos quanto continentais, incluem a poluição por despejo de resíduos industriais, urbanos e uso intensivo de pesticidas e fertilizantes, além de alterações físicas decorrentes da construção de barragens, represas, a introdução de espécies invasoras, canalização de rios e assoreamento causado pelo desmatamento de matas ciliares.

A sobrepesca impacta diretamente o tamanho das populações e leva a extinções locais, enquanto a introdução de espécies invasoras desestabiliza os ecossistemas por competição com espécies nativas por recursos alimentares ou espaço, predação e até transmissão de patógenos. A mudança climática, com o aquecimento das águas, afeta a reprodução e sobrevivência de espécies e altera o regime de chuvas e o nível do mar e de outros corpos d'água.

As causas da degradação quase sempre estão fora do corpo d'água. Um rio poluído recebe esgoto urbano lançado quilômetros acima de seu leito, enquanto um manguezal morre pelo desmatamento que altera o fluxo de sedimentos e de água doce que chega ao mar. O gerenciamento integrado da bacia hidrográfica e da zona costeira é o instrumento capaz de atuar nessas causas, que em geral estão localizadas fora do próprio ecossistema.

Alline observa que uma intervenção tecnicamente bem feita em um trecho de rio pode não se sustentar se o desmatamento continuar rio acima, já que o rio pode voltar a ser assoreado em pouco tempo. Para ela, esse é o principal argumento a favor do manejo integrado de bacia, pois atuar apenas no corpo d'água resolve o problema localmente sem resolver a causa.

Degradação aquática afeta a vida humana



A superfície do planeta Terra é 70% composta por oceanos e mares, sem contar a água doce nas geleiras, calotas polares, rios e lagos. Esses habitats marinhos geram de 50 a 80% do oxigênio da Terra, fornecem peixes, algas e outros recursos alimentares, além de sustentarem o lazer de milhares de pessoas, o que os torna um importante recurso econômico.

A restauração desses ecossistemas protege a biodiversidade e restabelece a conectividade entre espécies e áreas naturais. Além disso, garante serviços ecossistêmicos essenciais como a purificação da água, o controle de enchentes, a ciclagem de nutrientes e a proteção costeira.

A degradação ambiental, ao contrário, afeta diretamente a vida humana por meio da escassez de água potável, da redução da segurança alimentar devido à queda na produtividade pesqueira, de riscos à saúde pela ingestão de toxinas e de perdas econômicas para setores insulares e costeiros dependentes da qualidade ambiental, como turismo e pesca. A pesquisadora lembra que as populações mais afetadas são justamente as que já se encontram em maior vulnerabilidade social, em condições de moradia inapropriadas e mais expostas a variáveis ambientais.

Para Alline, quem mora em área sem saneamento e exposta a cheias costuma ser quem primeiro sente os efeitos da degradação ambiental, seja o pescador artesanal quando o pescado diminui, seja a família sem outra fonte de água quando o rio chega contaminado. A pesquisadora entende a restauração desses ecossistemas também como um componente social, não apenas ambiental.


Projetos bem-sucedidos unem monitoramento e integração comunitária


Os projetos de restauração em ambientes aquáticos bem-sucedidos costumam incorporar gerenciamento integrado e atuar na bacia hidrográfica como um todo, ao invés de pontos isolados. Em geral, envolvem as comunidades locais e outros atores sociais, garantindo que o projeto agregue valor socioeconômico local e mantenha o engajamento a longo prazo. Outra característica é que possuem base científica e monitoramento em suas premissas, agregando conhecimento prévio sobre o ambiente e realizando o monitoramento ao invés de aplicar técnicas padronizadas sem considerar o contexto local, colhendo dados das respostas ambientais.

Projetos que falham, por outro lado, em geral tratam a restauração como uma intervenção pontual e isolada, sem conexão com a paisagem ao redor, sem participação comunitária e sem monitoramento que traga dados que permitam realinhar as ações.

Há técnicas que merecem maior investimento por serem estratégicas, economicamente viáveis e de longo prazo. A remoção de espécies exóticas, a substituição de barragens e dragagens inadequadas, a utilização de fitorremediação, que é o uso de plantas para purificar águas poluídas, e a restauração com foco na conectividade da paisagem, que reconecta fragmentos de ecossistemas e habitats, são abordagens que combinam baixo custo com alta efetividade ecológica.

A fitorremediação com plantas nativas locais e monitoramento contínuo está entre as técnicas mais promissoras dessa lista. "É barata, eficaz e ainda cria habitat enquanto purifica a água, mas segue recebendo menos investimento do que soluções de engenharia pesada, como estações de tratamento convencionais. É uma técnica baseada na natureza competindo por atenção com soluções que parecem mais robustas, mesmo sem provas de que sejam mais eficientes", afirma Alline.





Programa Produtor de Água restaura nascentes com pagamento por serviços ambientais


Entre iniciativas de restauração aquática de sucesso, o Programa Produtor de Água , coordenado pela Embrapa e parceiros no Alto Rio Descoberto, no Distrito Federal, foca na restauração ecológica de nascentes e bacias hidrográficas. O projeto converte áreas degradadas por erosão em sistemas sustentáveis de agricultura orgânica e conservação.

O diferencial está no modelo econômico, visto que a restauração ecológica na bacia do Rio Descoberto transforma o desafio ambiental em ganhos financeiros para os agricultores por meio do Pagamento por Serviços Ambientais (PSA).



Isso significa que os produtores rurais que adotam práticas de conservação do solo e recuperação de nascentes em suas propriedades são remunerados pela contribuição que dão à qualidade da água e à estabilidade da bacia. Ou seja, o PSA cria um incentivo econômico direto para que o agricultor mantenha a prática de conservação ao longo do tempo e não apenas durante a vigência de um projeto pontual. É um exemplo de que a restauração aquática pode ser também uma política pública de geração de renda, desde que desenhada com base científica e com participação dos atores que vivem no território.

Projeto AngioMar promove a restauração de pradarias em Pernambuco



Na Ilha de Itamaracá, no litoral de Pernambuco, a Praia do Pilar abrigava prados da grama marinha Halodule wrightii, conhecida como capim-agulha, uma planta com flores adaptadas ao ambiente marinho. Estudos recentes identificaram uma perda de 94% da cobertura desse habitat. Essas pradarias estão entre os ecossistemas mais produtivos e valiosos do planeta e desempenham funções essenciais como a manutenção da biodiversidade, a proteção da linha de costa, a melhoria da qualidade da água e o sequestro de carbono azul.

O projeto AngioMar, coordenado por Karine Matos Magalhães, do Departamento de Biologia da Universidade Federal Rural de Pernambuco e apoiado pelo Instituto Conhecer para Conservar, tem como objetivo desenvolver e testar técnicas de restauração nas pradarias de angiospermas marinhas. A iniciativa concentra suas ações na Praia do Pilar e busca desenvolver soluções baseadas na natureza para a recuperação de ecossistemas costeiros, contribuindo para a conservação da biodiversidade, o fortalecimento dos serviços ecossistêmicos e o enfrentamento das mudanças climáticas.



A pradaria de Halodule wrightii é um sistema vivo e complexo, com uma riqueza de espécies associadas que vai muito além da planta. Funciona como berçário de peixes, área de reprodução e fonte de alimento para espécies ameaçadas como o peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) e a tartaruga-verde (Chelonia mydas), que utilizam esses ambientes como importante área de alimentação. Também sustenta atividades pesqueiras e a segurança alimentar de comunidades costeiras.

"Em Abrolhos, uma pequena pradaria de capim-agulha abriga uma riqueza de espécies que impressiona, tanto de algas como de animais associados", relata Alline, que pesquisou bancos de Halodule wrightii na região. "É um sistema vivo, produtivo, cheio de interações. Quando entendemos isso, paramos de tentar reconstruir uma cópia do passado e passamos a perguntar o que aquele ambiente ainda pode fazer pelas espécies e pelas pessoas que dependem dele."

Os resultados do AngioMar mostram que a modelagem de adequabilidade de habitat identificou áreas prioritárias para a restauração de Halodule wrightii no litoral norte de Pernambuco, fornecendo a base científica para a seleção dos locais experimentais e aumentando as chances de sucesso das intervenções. Os testes de transplante demonstraram que o uso de sacos biodegradáveis de juta aumenta a sobrevivência das plantas ao proporcionar maior estabilidade e proteção contra a ação das correntes oceânicas.

Espera-se que esses resultados contribuam para o aperfeiçoamento das técnicas de restauração e para a consolidação de um protocolo pioneiro, com potencial de aplicação em outros ambientes costeiros tropicais, visando o restabelecimento de serviços ecossistêmicos e fortalecendo ações de conservação, gestão e adaptação às mudanças climáticas.

Remoção de barragens devolve continuidade ao Rio Águeda em Portugal



No Rio Águeda, afluente do Vouga em Portugal, um projeto focado na melhoria dos habitats ribeirinhos ao longo de 50 km na bacia demonstra que a restauração aquática também pode significar a desativação de infraestrutura. A iniciativa inclui a remoção de antigas barragens, a construção de escadas para peixes e o repovoamento com espécies ameaçadas, como a enguia-europeia.

Barragens antigas, muitas vezes sem função econômica ou social ativa, interrompem o fluxo dos rios, bloqueiam a migração de peixes e fragmentam o habitat. A remoção devolve ao rio sua continuidade ecológica. As escadas para peixes permitem que as espécies voltem a percorrer trechos que estavam bloqueados e o repovoamento com espécies ameaçadas acelera a recuperação de populações que foram perdidas.

A escala da restauração aquática na Década da ONU



Ainda dentro da Década da Restauração de Ecossistemas da ONU, os projetos brasileiros e internacionais mostram que existe conhecimento técnico, base científica e comunidades dispostas a participar, mas ainda falta escala, integração entre bacias e investimento consistente em técnicas que já provaram funcionar.

"Temos técnica, temos ciência e temos comunidades dispostas a participar", diz Alline. "O que falta é dar à restauração aquática a mesma prioridade que já damos à restauração terrestre. Enquanto isso não acontecer, seguimos perdendo a oportunidade de recuperar rios, manguezais e pradarias e ecossistemas aquáticos indispensáveis à vida."




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